Tudo começou com algumas fotos. Aquelas fotos sob o céu noturno do Deserto do Atacama, que hoje eu tenho na minha galeria. Na época, eu vi na página de outra pessoa e senti uma profunda necessidade de ver aquele céu pessoalmente. Então, conhecer o Deserto do Atacama se tornou um sonho, que eu realizei há algumas semanas atrás.
O trajeto foi cansativo. Foram três voos e um transfer. Mas em uma manhã mais fria que eu esperava, cheguei em São Pedro do Atacama. Ainda não tinha certeza nesse momento se o sono e a moleza se deviam ao cansaço ou à altitude, mas logo descobri a resposta. Nas caminhadas para o hostel, para o almoço e para as casas de câmbio, o meu corpo começou a sentir o que era estar no deserto mais árido do mundo. Meu nariz ardia ao respirar e os meus olhos lacrimejavam. O sono e a moleza foram meus companheiros durante toda essa viagem. O horizonte marcado pela cordilheira e pelo imponente vulcão Licancabur traziam um tom de sonho e encantamento que seria difícil abandonar posteriormente.
O primeiro passeio foi no final daquela tarde: o pôr do sol no Vallecito, com direito à coquetel e parada no famoso Magic Bus. A paisagem desértica nesse dia se revelou em sua forma mais clássica, em tons de marrom e dourado. Embora a altitude ainda não fosse a maior que enfrentaríamos nos próximos dias, meu coração disparava mediante esforços físicos que seriam irrelevantes à nível do mar. Ali, eu entendi que o deserto ditaria o ritmo. Eu deveria desacelerar, contemplar e respeitar os sinais do meu corpo.
Na primeira noite, encontrei por acaso a lojinha de artesanato que pensei que só buscaria ao longo dos próximos dias. Comprei uma aquarela feita com os minerais do deserto e conversei um pouco com a vendedora sobre a arte espalhada nos muros de São Pedro do Atacama. Finalizei a noite no restaurante Adobe, no qual jantei junto a uma lareira e música ao vivo. Diante do primeiro impacto de um frio com o qual eu não estava acostumada, não consegui beber nada que não fosse um licor de chocolate que me lembrava a casa do meu namorado e o calor do Brasil.
No segundo dia, a minha respiração estava melhor e meus olhos não ardiam mais. De manhã, procurei alguns dos murais que a vendedora da loja de artesanato tinha mencionado. No almoço, uma sangria no restaurante Diablillo. E então chegou a hora do próximo passeio: algumas das famosas lagunas do Deserto do Atacama.
As primeiras lagunas que visitei foram a Laguna Cejar e Laguna Piedra, cuja concentração de sal impede que você afunde. Até o último momento, estava na dúvida se entraria, já que a água é muito gelada. Mas no final das contas, eu já estava ali e queria viver a experiência por completo. Entrei, flutuei, superei o choque térmico inicial e fiquei alguns minutos ali apreciando o silêncio e a vista da cordilheira. O tempo que se pode ficar na laguna é limitado para evitar a desidratação. Então eu saí, tomei uma ducha para tirar o sal do corpo e parti para a próxima parada: Ojos del Salar.
Os Ojos del Salar são dois poços de água doce em meio ao Salar do Atacama – como dois olhos, que refletem a alma do deserto: a sua Cordilheira. As fotos espelhadas nos Ojos do Salar são um espetáculo a parte, e permitem vários truques, como girar a câmera e captar a mesma imagem de cabeça pra baixo. Mas voltaremos a falar sobre fotografias mais adiante, porque a próxima parada foi a belíssima Laguna Tebinquiche. Ali, vi os meus primeiros flamingos e, pela primeira vez, fiquei totalmente estarrecida com a beleza de uma paisagem no Deserto do Atacama. Os reflexos e os tons de rosa, marrom, azul e dourado me silenciaram por um instante. As fotos foram tiradas, mas eu soube que nenhuma captaria o que os meus olhos captavam naquele momento.
No início da noite, eu e minha mãe, que me acompanhava nesse viagem, lanchamos na famosa La Franchuteria, uma padaria francesa em pleno São Pedro do Atacama. O chef nasceu em Borgonha, mas foi no Chile que decidiu começar o seu negócio. Há várias histórias como essa por ali. Pessoas de vários países, que vieram para conhecer e nunca mais foram embora. Comemos uma baguete (enorme!), com patê e capuccino. Estavam deliciosos!
O passeio astrofotográfico deveria ser nesse dia. “Vista todas as roupas que você tiver”, disse o guia. Então, eu me agasalhei para o frio intenso e fui esperar do lado de fora do hostel com o restante do grupo. O transporte estava atrasado e fazia cada vez mais frio. Uma das outras mulheres estava claramente muito impaciente. “Eu só quero tirar a foto”, ela afirmou. Embora eu entendesse o cansaço e o incômodo do frio, achei triste que, diante do céu mais bonito do planeta, a única preocupação de algumas pessoas fosse a foto. Eu queria a foto também, claro. Mas eu estaria ali mesmo que não houvesse espectativa alguma de registro fotográfico. Eu estava ali pela beleza, o encantamento e a grandiosidade. Para mim, o deserto trouxe um sentimento semelhante ao mar – algo maravilhoso e misterioso. Algo imponente e indomável, que remete à grandiosidade do universo e o meu ínfimo tamanho diante de tudo. Nós somos minísculos, mas fazemos parte de algo gigante. E somente conectando-se ao todo, conseguimos transcender nossa insignificância.
A manhã seguinte foi o momento de um dos passeios mais bonitos: o vale do arco-íris. Acordamos bem cedo para percorrer as paisagens surpreendentes em vermelho, verde e branco. E o inesquecível azul do céu atacamenho… O café da manhã foi feito ali mesmo, pelo próprio motorista do ônibus. O gosto de ovos com mérken foi certamente o sabor mais marcante dessa viagem. A altitude voltou a impor o ritmo cauteloso e contemplativo aos meus passos. No caminho de volta, vimos petroglifos e ouvimos histórias antigas e supreendentes sobre xamãs, cactus mágicos e lhamas de duas cabeças. Nas pedras, o passado dos likanantay se comunicava conosco.


À tarde, algumas pessoas do grupo foram pedalar no deserto, mas confesso que a bicicleta não é o meu forte. Encontrei, por acaso, um passeio alternativo, enquanto comprava um cachecol na famosa rua Caracoles: a Rota do Vinho Toconar. Bom, eu estava no Chile. Não iria embora sem tomar um bom vinho chileno. Então, parti para essa nova aventura. E o que deveria ser uma típica experiência de enoturismo, se transformou em algo a mais: uma lição sobre o cultivo sustentável e o trabalho das comunidades locais.
O passeio acontece no povoado de Toconao, a alguns quilêmtros de São Pedro do Atacama. A primeira parada é na adega da cooperativa Ayllu, onde são produzidos todos os vinhos cultivados na região. Os cooperados são membros da comunidade local, que vencem o desafio de cultivar os seus vinhedos no deserto mais árido do mundo, com a água proveniente do degelo da Cordilheira dos Andes. Fomos conhecer o vinhedo Santa Romina (e suas lhamas!). Ali, fizemos a degustação de três vinhos diante do pôr do sol no Salar do Atacama. Na volta, jantamos no restaurante Diablillo, que serve um salmão delicioso.
O dia seguinte foi meu último dia em São Pedro do Atacama. Foi também o dia do passeio em maior altitude de toda a viagem: a Rota dos Salares. A primeira parada foi um café da manhã aos pés do vulcão Licancabur, que eu havia contemplado no horizonte nos últimos dias. O frio foi intenso durante toda a manhã. A moleza e a dor de cabeça decorrentes da altitude incomodavam. Depois de uma parada nas Vegas de Quepiaco e no Bofedal Quepiaco, uma supresa: o meu grupo foi parado por um rapaz francês, que pedia resgate. E senta que lá vem história! Aparentemente, ele pegou um carro emprestado de um homem que conheceu no hostel e dirigiu para o meio do absoluto nada. Entrou em um lugar muito arenoso e o carro ficou preso. Estava ali buscando ajuda desde o dia anterior – tinha dormido no frio do deserto e andado quilômetros até encontrar o nosso grupo. No final das contas, deu tudo certo e conseguimos ajudar o rapaz. Mas fica o alerta (sem julgamentos): não subestime o deserto. Não subestime a natureza. Informe-se e conte com a ajuda dos locais para conhecer o lugar com responsabilidade e segurança.
Passei ainda pelo Salar de Águas Calientes e cheguei à última parada: o Salar de Quisquiro. Ali, mais uma vez, uma paisagem inacreditável me fez esquecer o frio, o coração disparado, a dor de cabeça e os olhos que ardiam. Mais uma vez, fui confrontada com uma beleza impossível de ser capturada por fotos. A presença de quinze flamingos cor-de-rosa tornaram o momento ainda mais raro e especial, naquela que seria uma viagem inesquecível.


No final da tarde, fiz um último passeio na cidade, no qual conheci o Museu do Meteorito. Há muita pesquisa em desenvolvimento em São Pedro do Atacama, seja na astronomia, geologia ou astrobiologia. Estar no Atacama é como estar em outro planeta. Mas isso é tema para outro post… Depois da visita ao museu, conheci o famoso Empório Andino e suas empanadas.
Nessa última noite, foi o momento do passeio que me levou até ali: o tour astrofotográfico. Mais uma vez, me agasalhei ao máximo, coloquei meu cachecol novo e fui ver o céu mais bonito da minha vida. Nesse tour, não é permitido o uso de celulares, câmeras ou qualquer outra luz que atrapalhe a observação das estrelas. Há um coquetel com vinho, frios e marshmellows junto a uma lareira. Depois, vi algumas constelações pelo telescópio. Nesse ponto, eu já estava congelada. Aliás, nesse momento da viagem, minha pele já estava totalmente ressecada e minha rinite me impedia de respirar à noite. Mas eu tinha a certeza de ter visto as paisagens mais incríveis e surpreendentes da minha vida. As fotos estão aí para provar. Pelo menos, em parte.
