Roadmovies: quando a estrada é o protagonista da viagem

O cinema sempre foi uma forma de nos transportar para outros lugares, mas há um gênero em especial que leva essa ideia ao pé da letra: os roadmovies. Mais do que simples filmes de viagem, eles transformam a estrada em metáfora para liberdade, autodescoberta e mudança. Ao longo das décadas, esse gênero se consolidou como um dos mais simbólicos quando falamos de movimento, encontros inesperados e destinos que muitas vezes são menos importantes que o próprio percurso.

O termo “roadmovie” vem da junção de road (estrada) e movie (filme). Sua essência é simples: a narrativa se desenvolve ao longo de uma viagem, geralmente por estrada, onde os personagens enfrentam obstáculos externos e internos. A jornada é física, mas também psicológica e existencial. Em muitos casos, é o deslocamento que move a trama — o que diferencia o roadmovie de outras histórias que apenas contêm viagens.

A origem desse gênero remete às décadas de 1940 e 1950, inspirada em parte pela cultura dos carros e motocicletas nos Estados Unidos, além da ideia de explorar o território vasto e variado do país. Filmes como The Grapes of Wrath (1940), baseado na obra de John Steinbeck, já mostravam famílias deslocando-se em busca de uma vida melhor. Mas foi nos anos 1960 e 1970 que o gênero se firmou como ícone cultural, refletindo os conflitos sociais e a contracultura da época.

Um dos marcos incontornáveis é Easy Rider (1969), dirigido por Dennis Hopper. Nele, dois motociclistas cruzam os Estados Unidos rumo à liberdade, em uma narrativa que mistura crítica social, psicodelia e música marcante. Esse filme consolidou o roadmovie como um gênero de resistência e liberdade, associando-o à busca por sentido em meio a uma sociedade em transformação.

Outro título fundamental é Thelma & Louise (1991), de Ridley Scott, que não apenas redefiniu o gênero, mas também deu protagonismo feminino a uma narrativa antes dominada por personagens masculinos. A fuga das duas mulheres, inicialmente um gesto de liberdade, transforma-se em símbolo de rebeldia e sororidade. O final trágico e icônico ainda hoje é lembrado como um manifesto contra a opressão e a falta de alternativas.

Os roadmovies não se limitam ao cinema americano. O gênero se espalhou pelo mundo, ganhando versões com diferentes perspectivas culturais. No Brasil, por exemplo, podemos citar Diários de Motocicleta (2004), de Walter Salles, que acompanha a juventude de Che Guevara em uma viagem pela América do Sul, revelando tanto as paisagens quanto as desigualdades sociais. Outro exemplo brasileiro é Central do Brasil (1998), também de Salles, que mistura o drama humano com a estrada como espaço de transformação.

Na Europa, encontramos filmes como Y Tu Mamá También (2001), de Alfonso Cuarón, que além de roadmovie é também uma história de amadurecimento (coming of age). Já Into the Wild (2007), dirigido por Sean Penn, retoma a essência clássica do gênero: um jovem abandona a vida urbana em busca de contato radical com a natureza, questionando os limites entre liberdade e isolamento.

Conceitualmente, os roadmovies exploram a estrada como metáfora. O deslocamento rompe a rotina e coloca os personagens em contato com o inesperado. A cada parada, encontro ou paisagem, surgem dilemas que refletem questões existenciais: quem somos, o que buscamos e até onde estamos dispostos a ir para conquistar isso. Em muitas narrativas, o destino final é menos importante do que o aprendizado adquirido ao longo do caminho.

É interessante notar como a música tem papel essencial nos roadmovies. Trilhas sonoras como a de Easy Rider (com hits de Jimi Hendrix e Steppenwolf) ajudaram a criar a atmosfera que liga estrada e liberdade. Até hoje, é difícil pensar nesse gênero sem lembrar de uma boa playlist para acompanhar a viagem, reforçando a ideia de que a experiência sensorial vai além da imagem.

Por fim, os roadmovies dialogam diretamente com o universo das viagens reais. Assim como na vida, onde muitas vezes os imprevistos da estrada se tornam as memórias mais marcantes, no cinema o caminho é sempre transformador. Talvez seja por isso que esse gênero continue tão atual: ele nos lembra de que toda viagem, no fundo, é uma metáfora para a busca de sentido e de pertencimento.


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sou a Cecília

criadora de conteúdo e amante de viagens com propósito. Acredito que cada destino carrega algo único e transformador, e é isso que me inspira a contar histórias. Neste espaço, você encontra dicas, trilhas e vivências que vão além do turismo comum.

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