Viajar com olhos e coração abertos

Durante minha estadia em Paraty, presenciei uma cena curiosa. Um casal caminhava pelas ruas históricas da cidade quando começou a se incomodar com a água que corria entre as pedras do calçamento. Os dois demonstravam repulsa, comentando com nojo sobre aquilo que, para eles, era sinal de descuido ou sujeira. No entanto, aquela água faz parte do próprio funcionamento do município, de sua geografia e de sua história.

Paraty é uma cidade que respira maré, rios e chuvas tropicais. Suas ruas coloniais foram planejadas em um tempo em que a natureza ditava os ritmos de convivência, e não o contrário. A água que sobe e desce, ora vinda do mar, ora da chuva, é parte da paisagem e do cotidiano local. O que para alguns pode parecer “sujeira” ou “incômodo”, para outros é memória viva de um modo de vida em harmonia com o ambiente.

A reação daquele casal me levou a pensar sobre a forma como nos relacionamos com os destinos que visitamos. Muitas vezes, viajamos carregando um olhar moldado apenas pela nossa rotina, pelas nossas referências de conforto e estética. Julgamos o que vemos sem nos perguntar o que há por trás, sem tentar compreender a lógica cultural, histórica ou ambiental daquele lugar. Em outras palavras: tentamos encaixar o mundo inteiro dentro do nosso pequeno referencial pessoal.

Esse tipo de postura pode ser limitador, porque transforma a viagem em uma simples comparação de o que há lá versus o que temos aqui, o que é “melhor” ou “pior”. Nessa lógica, acabamos esquecendo que cada lugar tem sua própria forma de existir, sua própria coerência interna, que não precisa imitar a nossa para ter valor.

Viajar, para mim, é um exercício de humildade. É abrir mão da ideia de que meu modo de vida é superior ou universal. É reconhecer que, em cada canto do mundo, existem soluções criadas para responder a desafios locais: desde o modo como se constrói uma casa até a forma como se lida com a água que corre pelas ruas. Quando nos permitimos enxergar isso, a viagem deixa de ser apenas turismo e se torna aprendizado.

Também é um exercício de empatia. Ao invés de estranhar com desdém, podemos nos perguntar: o que essa característica revela sobre a cultura desse lugar? Qual a história por trás dessa prática? Que relação com a natureza, com o tempo ou com a coletividade se reflete nesse detalhe? Perguntas como essas ampliam o olhar e transformam incômodo em curiosidade, e a curiosidade em compreensão.

Esse processo exige um tipo de desapego. Desapego à ideia de que viajamos para confirmar certezas. Pelo contrário: viajamos para confrontá-las, para descobrir que nem tudo se organiza da forma que conhecemos. Esse estranhamento, em vez de ser um problema, pode ser o início de uma nova visão de mundo. É o choque que nos faz crescer.

Quando penso nesse episódio em Paraty, percebo que as águas que incomodaram aquele casal foram, para mim, um lembrete valioso: o mundo é maior do que a bolha de referências em que vivo. E é justamente por isso que vale a pena explorá-lo. Cada rua, cada costume e cada detalhe carrega uma forma singular de lidar com a vida e, se nos fechamos a isso, perdemos a essência da viagem.

Manter mente e coração abertos significa aceitar que nem tudo será confortável, previsível ou “limpo” no sentido que conhecemos. Significa entender que beleza pode estar em uma rua alagada pelo sobe e desce da maré, em uma refeição com temperos desconhecidos ou em um hábito que, de início, nos soa estranho. É nesses momentos que nos tornamos verdadeiros viajantes, e não apenas turistas.

No fim das contas, viajar não é sobre levar o nosso mundo na mala e esperar que ele se replique em outros lugares. É, antes, sobre se deixar surpreender pela diferença, reconhecer a diversidade de modos de existir e, talvez, voltar para casa com uma nova percepção sobre o que é viver. Afinal, o maior presente de uma viagem não é a foto perfeita ou o souvenir que trazemos, mas a transformação silenciosa que acontece quando deixamos o mundo nos ensinar.


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2 respostas para “Viajar com olhos e coração abertos”.

  1. Avatar de LIBIA
    LIBIA

    que texto maravilhoso!!!

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    1. Avatar de Guia de Aventuras da Ceci

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sou a Cecília

criadora de conteúdo e amante de viagens com propósito. Acredito que cada destino carrega algo único e transformador, e é isso que me inspira a contar histórias. Neste espaço, você encontra dicas, trilhas e vivências que vão além do turismo comum.

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